30 de mai. de 2010

conto - O inimigo

Já dizia Nietszche: “Procuravas o fardo mais pesado e encontraste a ti mesmo... Não podes mais libertar - te de ti mesmo...”. Ah, como eu bem compreendia as palavras de Zaratustra!
Eu sempre soube, desde bem pequena, que o meu pior inimigo morava dentro de mim. Ele aparecia nas horas mais impróprias, fazendo - me derrubar refrigerante sobre o convidado mais importante da festa, fazendo - me tropeçar e cair no hora do passeio de domingo... O pior eram as provas escolares, quando ele colocava as vírgulas nas decimais erradas e trocava todas as datas.
Mais tarde vim a saber que outras pessoas tinham seus demônios, ou vozes, interiores. Sócrates. Joana d’Arc. Diziam : “a voz de Deus dentro de mim”. Eram demônios bons, pois Sócrates foi um filósofo e Joana uma santa. Pensando melhor, foram demônios maus, pois ambos foram condenados à morte justamente porque ouviam vozes.
O meu é com certeza um demônio cruel. Ele não fala, age. Nunca sei o que ele vai fazer, até que o faça. E aí fico indefesa. Nada mais inútil que tentar consertar uma gafe. Quanto mais a gente se explica, pior fica.
“Rosana, não se zangue por eu não ter convidado você para a minha festa. Não fiz de propósito. É que eu me esqueci de você.”
“Zézinho, eu não levei você para casa não foi por falta de coleguismo, não. É que eu não reparei que estava chovendo, por isso não entendi quando você falou que estava sem guarda - chuva.”
E assim fui perdendo pela vida meus amigos, e também os concursos, os empregos e tudo de bom que aparecesse pela frente.
Um dia conheci um gato, gatão, gatésimo, e ele me convidou para sair. Pois ao sair do banho, pensando no lindo vestido que eu ia estrear, escorreguei no sabonete e fraturei o cóccix.
Ah, não! Foi demais! Senti tanta raiva que resolvi destruir o demônio. E tanto me esforcei que aprendi a pressentí - lo, e um segundo antes que ele se manifestasse, eu saia na frente e agia. A meu favor, naturalmente.
Assim finalmente passei no vestibular, formei - me ( com louvor), garanti um bom emprego e fiquei noiva de um moço distinto de boa família bem situado na vida como mamãe, papai e eu sempre desejamos para minha felicidade.
Pois na manhã do casamento acordei num lugar estranho, numa cama estranha, ao lado de um estranho. Nua. Suja.
O quarto, em completa desordem, fétido, garrafas pelos cantos.
Só pode ser um pesadelo, pensei.
Tomei um banho, vesti a roupa mais limpa que encontrei, peguei uma bolsa com meus documentos e dinheiro e esgueirei - me porta afora. Detalhe : eu nunca tivera tanto dinheiro em minhas mãos.
Tomei um táxi, rumei para a rodoviária, comprei um jornal. Eu estava em outro estado, exatamente um ano depois.
Um ano depois !
Minha primeira preocupação era fugir, por isso peguei o primeiro ônibus a sair, desci na próxima parada, comprei um passagem para minha cidade e telefonei para meus pais.
- Chego na rodoviária às 18:00, papai, por favor, fique me esperando.
- Filha, onde você está? O que aconteceu ?
- Acredite, não sei o que aconteceu, ontem à noite era a véspera de meu casamento e lembro - me de que deitei - me para dormir. Estou com muito medo, pai.
Descobri mais tarde que durante este ano eu tivera várias passagens pela polícia, por prostituição, roubo e tráfico de drogas pesadas.
Os médicos explicaram que eu sou um caso raro de epilepsia temporal. Dizem eles que o cérebro cria uma dupla personalidade e sofre uma aparente amnésia, pois tudo o que acontece durante o longo período de crise desaparece da consciência.
Fui absolvida, e, é claro, submetida a um milhão de testes psiquiátricos. Adeus, carreira! Adeus, emprego! Adeus, casamento! Que homem vai querer casar - se com uma mulher que de uma hora para outra se esquece de quem é e vai instalar - se na zona do meretrício a cheirar uma branquinha ?
Os médicos garantem que eu sou epiléptica, é só tomar o remédio direitinho que nunca mais vou ter outra crise.
Engano deles.
Não é crise nenhuma. É o demônio.
O demônio dentro de mim está rindo, rindo baixinho, tão divertido com a confusão que aprontou!
Passei meses meditando sobre este assunto. Estava a princípio resolvida a matar estafermo nem que para isso eu precisasse cometer suicídio.
Agora não quero mais destruí - lo.
Cheguei a uma conclusão incômoda.
Tirando todo o verniz de civilização com que me socializaram, o que resta ?
Por estranho que pareça, este demônio, este duplo, esta doença, seja lá qual for o nome que se dê para isto - este demônio, dizia eu, é a parte mais verdadeira, quiçá a única parte autêntica de mim mesmo.

Publicado em 1999 no livro:
CONTOS DE TERROR
(porque possíveis...)

Não adianta trancar as portas e as janelas. O inimigo já está dentro de casa. Neste momento mesmo, pode estar à espreita....

“A desgraça é variada. O infotúnio sobre a terra é multiforme.” – Edgar Allan Pöe.

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