30 de mai. de 2010

crônica - Meus amigos livros

Estou condenada à aposentadoria e a ter de colocar os meus amigos no prego!
Exagero?
Sucessivos ministros da economia tem-me empurrado para moradias cada vez menores. Fico a me perguntar o que farei com meus amados livros quando o próximo desastre econômico empurrar-me para um quarto e sala.
Se tiver de reduzí-los a uma dúzia de títulos, sem dúvida alguma ficarei com Edgar Allan Pöe, o mestre do horror e do suspense. Recentemente emprestei-o a uma amiga que o devolveu no dia seguinte com uma expressão de assombro: “Não quero saber deste troço esquisito”. Eu o recebi com carinho e o recoloquei em seu lugar de honra na estante. Como deixar de concordar com Pöe, afinal? Pois “a desgraça é variada. O infortúnio da terra é multiforme”.
Ficarei também com os romances russos, com sua peculiar visão de vida a oscilar entre a comicidade e a tragédia; os contos de Machado e o teatro de Dias Gomes; os Diálogos de Platão e, é
claro, Oscar Wilde, para rir-me da hipocrisia humana.
Não, não levarei comigo nenhum livro religioso. Quando pediram a Buda que falasse sobre Deus, o Iluminado não pronunciou uma única palavra. Limitou-se a mostrar uma flor.

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