26 de mai. de 2010

conto infantil - Uma lenda chinesa

Quando a prima Lúcia chegava, distribuindo sorrisos e abraços, Juquinha e os irmãos corriam para ela, contando as novidades e pedindo estórias.
Pois a prima Lúcia, que nunca beliscava as bochechas das crianças nem perguntava ‘o que você vai ser quando crescer?’, contava lindas estórias. Narrativas especiais que pareciam não ter fim, porque Juquinha ficava dias pensando nas perguntas que apareciam em sua cabecinha por causa das tais estórias.
Naquela tarde, como as crianças estivessem brincando com massinha de modelar,a prima contou a estória de Ching Liu, o chinesinho que gostava de modelar no barro vasos, estátuas e enfeites de todos os tipos.
“Ora, o imperador passou pela aldeia e convidou Ching Liu para trabalhar no palácio.
As estátuas perfeitas que Ching Liu colocava nos jardins confundiam os visitantes, que se dirigiam a elas pensando que fossem pessoas de verdade.
O cozinheiro real chateava-se porque os convidados elogiavam mais a louça do que as iguarias servidas nas festas da Corte.
Ching Liu misturava as tintas com maestria, até obter o matiz exato das manhãs de verão ou das tardes de primavera e o branco idêntico ao da neve das montanhas.
Certo dia, a princesa chamou Ching Liu a seus aposentos e pediu-lhe um vaso que fosse o mais maravilhoso de quantos se tivesse notícia.
- Que os pásssaros pareçam voar, que as folhas pareçam tremular ao vento e que a pele das pessoas tenha a textura e a cor da pele humana. – exigiu a princesa.
Ching Liu pôs-se imediatamente ao trabalho. Modelou e cozeu dezenas de vasos, até obter o traço leve que imitava os pássaros em vôo e a brisa refrescante à beira do lago.
Finalmente Ching Liu preparou o vaso para a princesa, sentou-se em frente ao forno e dirigiu-se ao fogo:
- Eu darei a minha alma para que este vaso seja perfeito, tão perfeito que as figuras nele pintadas tenham a cor e a textura da pele humana.
Pela manhã, na oficina do mestre, os moradores do palácio encontraram um montinho de cinzas e um vaso maravilhoso, onde a paisagem parecia real e as figuras pareciam vivas.
E foi assim que Ching Liu tornou-se o deus da porcelana.”
Juquinha, fascinada, ficou pensando... Ching Liu poderia ter-se recusado a deixar a aldeia, poderia ter dito à princesa que desconhecia a tinta que imitava a pele humana, mas não! Ching Liu, curioso, gostava de desafios; tentava, tentava até conseguir o que queria.
- O deus já estava dentro de Ching Liu quando ele nasceu! – exclamou Juquinha, como se houvesse descoberto um grande segredo – Assim como a semente já carrega a promessa da flor antes de ser plantada!
O menino admirava-se de que tantos pensamentos importantes surgissem em sua cabecinha depois de ouvir as estórias da prima Lúcia. Pensando nestas coisas ele sentia o coração bater feliz.
Por essas e outras a família chamava Juquinha de pequeno filósofo.

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