26 de mai. de 2010

conto : Como um castelo de areia.

um conto de
Sonia Regina Rocha Rodrigues


“Se a vida se resume em ser, porque temos tanto medo disso? Por que nos é tão difícil nos entregarmos e simplesmente sermos?”.
Alexander Lowen – em Medo da Vida






I

Introdução

A casa da rua Evaristo da Veiga está sempre em meus sonhos, com seus canteiros de rosas, a varanda de formas abobadadas, na sala acolhedora os cheiros reveladores de deliciosos quitutes.
Em meus sonhos, os primos, dos quais eu e Roberto somos padrinhos de casamento, nos recebem calorosamente e a conversa se prolonga madrugada adentro, como aconteceu em minha juventude.
Nesta casa, eu conheci Roberto, há trinta anos atrás.
Naquela noite eu usava uma saia longa de cetim e uma blusa de cambraia cujo decote era composto por babados delicados.
E porque eu tinha vinte anos e o espelho refletia uma imagem linda de mulher, eu ousei ser feliz.


II


Ah! Como poderia ter sido diferente a minha vida após eu ter conhecido Roberto!
Afinal, eu saía da insignificância habitual da geração mais nova para ingressar no mundo adulto como uma profissional competente e uma mulher interessante.
Os círculos freqüentados por meus primos eram os artísticos, o fascinante mundo até então interdito – porque noturno e pago – que se abria ante mim em uma promessa agradável de sucessivos concertos, espetáculos, debates, palestras e exposições variadas.
Meus prósperos tios eram conceituados e seu prestígio corria também por conta de serem corretos e educados.
Naquela noite, meu tio circulou comigo pelo salão e apresentou-me a outros profissionais de minha área, a alguns políticos, a vizinhos e a familiares distantes, alguns dos quais só me haviam visto em meu batismo!
Meu primo, impressionado pela minha boa aparência e alegria, me disputava com meu tio, para apresentar-me ora a um amigo, ora a outro.
Desgarrada de minha mãe, eu flutuava pelo salão embriagada pelo meu sucesso, seguida de perto e insistentemente por um par de olhos verdes, ardentes e ternos, que me fora apresentado rapidamente à chegada, e que deixara escapar às minhas costas um suspiro de admiração:
- Quem é esta mulher tão linda?
E enquanto eu caminhava de um grupo a outro, bebendo com elegância e moderação, respondendo com graça aos elogios e com observações bem humoradas aos diversos assuntos abordados aqui e ali, o brilho dessas duas esmeraldas se refletiam nos meus.
Meu tio parecia divertir-se em brincar de gato e rato. Bastava Roberto chegar-se à roda e conseguir dirigir-me a palavra, que o tio, com um pretexto qualquer, arrastava-me para o canto oposto da sala.
Ao fim da noite, o moço conseguiu, enfim, sentar-se a meu lado, sendo imediatamente imitado por meu pai, que lamentava, a sorrir, ter ficado, durante a festa inteira, afastado da filha:
- Parece-me que você se divertiu muito, e agora já é hora de também nos retirarmos. Além dos pais, dos noivos e dos padrinhos, não há mais ninguém por aqui.
Com efeito, os outros padrinhos já se despediam dos noivos e o olhar de Roberto com certeza estava tão ansioso como o meu.
Na noite seguinte, seria a cerimônia na igreja, e nos despedimos impacientes, tentando dissimular nossas frustrações presentes e esperanças futuras.



III


Para a cerimônia da igreja, usei um vestido sóbrio de corte elegante, porém nada discreto. Na seda verde-escuro destacavam-se exóticos dragões dourados. Prendi meus longos cabelos com delicadas varetas de marfim, em um coque fofo, à maneira oriental.
Eu sonhara durante meses com o chapéu que usaria na cerimônia, porque os chapéus, charmosos e graciosos, voltavam à moda, contudo, minha prima, que detestava chapéus, exigira de todas as convidadas a solene promessa de não usarmos chapéus.
Assim, eu me vingava, substituindo o impossível adorno por um penteado bem exuberante.
Só consegui avistar Roberto após a saída da igreja, por breves segundos. Os pais o chamavam, pois ele dirigia o carro da família. Prometi guardar um lugar vago para ele, a meu lado, no salão de festas.
Uma multidão se acotovelava para entrar no clube, onde centenas de convidados circulavam entre as mesas laterais com bebidas e doces.
Habitualmente tímida, meu comportamento extravagante e subitamente expansivo surpreendia a todos que me conheciam. E a surpresa, sem dúvida, agradava, pois eu era chamada e arrastada daqui para ali, insistentemente.
Entre risos, meus olhos percorriam ligeiros todos os rostos, à procura de certo brilho verde. Roberto, certamente, fazia o mesmo, e, quando finalmente nos encontramos, ele, com uma exclamação de surpresa, soltou o copo que tinha em mãos e gelo e uísque se espalharam com estrépito.
Rimos.
Um círculo formou-se a nosso redor e Roberto, corando, desculpou-se pelo gesto desastrado, tomou de meu braço e dirigiu-se comigo para um canto mais distante dos olhos curiosos de nossos parentes:
- Finalmente, conseguiremos conversar!
Se eu houvesse tomado alguma bebida alcoólica, não estaria mais tonta do que após sentir o toque de suas mãos em meu cotovelo.
Aquele toque foi uma revelação: era ele.
Nem sei o que eu disse, nem por quanto tempo conversamos, esquecidos do resto do planeta.
Ele tinha dez anos mais que eu, já estava com a vida encaminhada, e, para minha alegria, fulminado como eu por uma paixão arrebatadora. Seus olhos me contavam, seu sorriso o revelava.
Quando, em um gesto elegante, ele retirou do colete uma corrente de ouro para olhar as horas em seu relógio de bolso, eu me senti definitivamente transportada para as páginas do mais maravilhoso romance de amor jamais escrito.


IV

Na manhã seguinte, acordei com o sol alto.
Arrastei meu corpo até o banheiro e prendi em um rabo de cavalo os cabelos que grudavam ao pescoço suado.
Peguei mecanicamente meu boné de baseball, calcei um par de tênis e coloquei minha ‘roupa de pedalar’: uma bermuda comprida e camiseta. Pois minha vida incluía atividades de atleta: meia hora de ginástica, farto café da manhã, três horas de pedalada na praia, água de coco e só então eu planejava o que faria naquela tarde preguiçosa de férias.
Na cozinha, mamãe ligava o ventilador e preparava uma salada para o almoço. Ao me ver, ela comentou:
- Sabe, seu tio ligou. Disse que hoje, bem cedo, Roberto estava na porta da casa dele para pedir o nosso telefone. E como seu tio sai cedo para abrir o bar, o rapaz deve ter madrugado.
O bom senso me dizia que, no dia seguinte ao casamento da filha, meu tio encarregaria o sócio de abrir o bar, mas não retruquei. Minha mãe tem um talento peculiar: transforma qualquer argumentação em uma boa briga.
Ela começou a jogar iscas para mim:
- Este rapaz...
- Mãe, hoje eu vou cortar o cabelo – interrompi – Vou parar no salão antes de ir para a praia, mas pretendo voltar na hora de sempre para o almoço. Se eu atrasar, por um acaso, você já sabe o motivo.
Este era um cuidado especial que eu precisava ter para evitar discussões horríveis: garantir que ela soubesse, ou pensasse saber, minuto a minuto, onde eu estava, com quem, porquê, para que.
Ela prosseguiu:
- Eu e seu pai conhecemos este rapaz já anos. Ele cresceu junto com o noivo de sua prima, são como irmãos. Ele...
- Mamãe, ele é simpático, bonito, culto, divertido, perfeito!
- Ele é de outra geração. É bem mais velho que você!
- Eu sei, ele me disse: ‘trinta anos, mas a cabeça é de vinte’.
- Bom, eu avisei!
- É bem típico de você! O sujeito nem me telefonou e você já está aí mexendo os pauzinhos, torcendo para não dar certo!
Saí brava pela porta dos fundos, em busca da magrela, o suor escorrendo até pelas sobrancelhas. Era um daqueles dias em que papai costumava comentar:
- Deus botou fogo no mundo!
Chegando à cabeleireira, tive um impulso:
- Corte bem rentinho, tipo Elis Regina.
A moça pegou. indecisa, os cachos que caíam, sedosos, até a cintura:
- Quer guardar os cabelos para fazer com eles um peruca? Dá uma channel bem bonita.
- Sim, quero – falei, imaginando como seria divertido variar o comprimento dos cabelos.
Saí dali leve, sentindo o delicioso arzinho acariciando meu cangote, e fui perseguir as ondas à beira-mar.

V

Papai ficou sorrindo para mim, no almoço, enquanto me contava histórias sobre a família de Roberto: o sítio em Valinhos, a pequena indústria de vinhos e sucos de uva, o divertido humor do pai dele, Rodolfo, e as gafes cometidas pela orgulhosa mãe...
- A família é muito católica, mas gosto deles.
Porque nós não éramos católicos.
Eu sentia-me feliz. Papai gostava de Roberto e torcia por mim. Afinal, havia também uma grande diferença de idade entre meus pais. Mamãe gostava de dizer que ela sempre fora amadurecida para a idade. O que deixava implícito ‘ao contrário de minha filha’. Ela sempre reprovou meu amor aos esportes. A paciência que eu tinha em ajudar os menininhos da vizinhança a desenroscar as linhas das pipas ou a ensiná-los a pegar peixinhos no canal com latinhas suspensas por barbantes não ajudava em nada a melhorar o conceito que ela tinha a meu respeito.
Eu sempre achei que eu seria uma mãe participativa, do tipo que brinca com os filhos. Mamãe nunca fez idéia do quanto eu me sentia solitária, única filha de dona de casa responsável, cuja prioridade eram as tarefas domésticas.
Eu não convivi com os amigos de meus primos, pois eles eram bem mais velhos que eu. Nossa família se visitava aos domingos. Meus primos moravam todos na mesma quadra e se viam diariamente. Nos fins de semana, passavam rapidamente pela sala para cumprimentar meus pais, quando nos surpreendiam na casa deles, enquanto saíam ou chegavam de passeios com sua turma.
Eu não participava dos programas adultos, é claro, dos jantares, churrascos ou bailes que meus pais freqüentavam uma ou duas vezes por mês, junto com meus tios e primos crescidos. Nessas ocasiões, eu dormia em casa de Selma, minha melhor amiga e vizinha, que há dois anos mudara-se com a família para Porto Alegre, onde fazia faculdade, e nunca mais me enviara notícias. Nessas ocasiões é que meus pais encontravam Roberto e seus pais, quando eles vinham veranear. E há quatro anos Roberto se ausentara do país, fora aos Estados Unidos cursar o mestrado e o doutorado. Retornara dias antes do casamento de meus primos.
Roberto conquistara uma bolsa integral do CNPq – Conselho Nacional de Pesquisa e Tecnologia. Isto parecia ser terrivelmente difícil de alguém conseguir, pelo tanto que o elogiavam.
Mais tarde, ele me diria, um tanto constrangido, no seu jeito modesto:
- Não é tão difícil assim. Eu tinha as melhores notas da classe e desenvolvi um trabalho de conclusão de curso que interessava muito ao país, embora eu nem sequer desconfiasse disso. O assunto versava sobre a criação de alevinos de carpa. Um professor meu, que trabalha em projetos relacionados, indicou o meu nome e escreveu uma carta de apoio. Nada demais.
Roberto era tratado por todos como um pequeno gênio, um cérebro privilegiado.
Eu não me impressionava particularmente com este fato porque sempre tive as melhores notas de minha turma e sentia-me perfeitamente capaz de concorrer a qualquer tipo de bolsa, se me interessasse por uma.
Eu estava interessada era em seu caráter gentil e na atenção que ele me dispensava. Detesto homens que falam de si mesmos o tempo todo e parecem competir com o mundo para provar que são os melhore, esquecendo-se das mais elementares regras de civilidade, como abrir a porta do carro, perguntar por nossas preferências no restaurante, onde preferimos passear e, o mais importante: ouvir nossas respostas.
Os rapazes de minha idade eram camaradas inseguros que exibiam as namoradas como troféus e exibiam seus carros, roupas e cartões de crédito como se o valor de um homem dependesse das coisas que a gorda mesada das pais podia comprar para eles.
Roberto era diferente. Ele falava de arte, pintava em seus momentos de lazer, observava as curiosidades dos lugares para onde viajara. Amava os livros, como eu. E neste momento, os pais dele deveriam estar contando a ele sobre minha família, mas que bobagem, eu havia me esquecido por um momento de que ele conhecia minha família! Quem poderia não gostar de papai? Bem, eu esperava que Roberto relevasse certas atitudes de minha mãe.


VI

Roberto me telefonou no princípio da tarde, e acertou de aparecer no sábado à tarde:
- Você sabe, como cheguei no Brasil há pouco, estou ocupadíssimo agendando entrevistas de emprego, e meu currículo anda passeando por Campinas, São Paulo e outras cidades onde existam universidades, então estou viajando bastante. Eu concorri a uma vaga de biólogo no Estado assim que desembarquei, e se eu for aprovado, quem sabe eu possa trabalhar aí em Santos, no Aquário ou no Museu de Pesca, enquanto aguardo a cátedra que espero conseguir.
Eu lhe desejei boa sorte.
Então fui à Biblioteca escolher o que faria para preencher as tardes daquela semana. Eu estava lendo no momento William Reich e Alexander Lowen, porque decidira orientar meu trabalho de conclusão de curso para as fobias e as técnicas de bioenergética, portanto, como era meu costume, lia e anotava tudo o que podia sobre o assunto.
Sobre a mesa de nossa biblioteca – na casa de meu pai, bem como na de meu avô, sempre houve uma biblioteca como o cômodo principal da casa – sobre a mesa de nossa biblioteca, como eu estava dizendo, estava também aberto um livro de Platão e outro de Simone de Beauvoir, para eu me distrair quando cansasse de estudar.
Eu nunca lia menos que três livros de cada vez, não o conseguiria, preciso de variedade, de grande estímulo intelectual constante.
Ao lado do aparelho de som estavam meus discos: um curso de alemão, para aprimorar a pronúncia, e a coleção de música clássica. Mozart, Beethoven e Bach estavam ficando fininhos, de tão tocados. Meus estudos rendiam melhor ao som de música clássica.
Eu retirei das estantes os livros de arte de mamãe. A pintura era o ponto em comum entre nós, quero dizer, a admiração pelos pintores, porque eu não herdara dela as mãos habilidosas com os pincéis. Escolhi os que falavam de Renoir, Degas e Caravaggio, para recordar as suas obras e biografias. Eles eram os pintores favoritos de Roberto. Eu gosto dos holandeses e de certos paisagistas ingleses.
Era uma bênção ter uma biblioteca e poder ler afastado do ruído da TV e do rádio, onde mamãe parecia escolher, propositalmente, os programas mais desagradáveis. Ela torce o nariz para as minhas músicas, diz que são músicas de restaurante, boas apenas para dormir.
Quem conseguiria dormir ao som de Beethoven? Só mesmo a minha mãe para fazer um comentário desses...
É verdade que a música me acalma. Depois de exercitar-me com a ginástica e as três horas de pedalada, meus pés e mãos ainda se agitam, inquietos, e por isso eu gosto de ler na rede, porque o movimento da rede ajuda a minha concentração.
Acabei meu ritual trazendo o bule de chá gelado, uma maçã e algumas balas para ter um lanchinho à mão.
E mergulhei em meu paraíso particular, que divido com meus melhores e eternos amigos – os livros.


VII

Na sexta fiz limpeza de pele e depilação; no sábado, para grande espanto e alegria de minha mãe, ajudei na faxina da casa, quer dizer, da varanda, das áreas externas e da biblioteca.
Após o almoço, papai começou a preparar a cozinha para o lanche. Meu pai fora garçom quando jovem, e gostava de arrumar mesas para festas. Escolheu uma bonita toalha, as melhores louças, os aparadores de prata, guardanapos de linho que ele dobrou lá daquela maneira especial que eu nunca consegui aprender, e colocou dois pequenos arranjos de flores sobre a mesa.
Quando Roberto chegou, papai sentou-se à sala conosco, bem como mamãe. Conversaram como conversam os adultos que se conhecem de longa data – mil detalhes sobre a viagem de Roberto aos Estados Unidos, política, economia, planos para o futuro próximo. E eu lá, doida para conversar com ele a sós. A sós, evidentemente!
Papai encomendara deliciosos croissants e pãezinhos doces. Sentada naquela caprichada mesa, naquele ambiente tão ‘família’m eu torcia para que Roberto não se assustasse e saísse correndo para fora de minha vida para sempre.
Eu me sentia como uma donzela de séculos atrás, quando o marido só se via a sós com a esposa depois do casamento, quando os namoros eram familiares. Só nos faltava mesmo a namoradeira!
O sol se punha quando eu pude estar face a face com Roberto – no portão, à despedida. Ele me olhou um pouco assustado:
- O que foi isso?
- Papai é assim, muito hospitaleiro, ele gosta de receber bem as pessoas. E ele gosta de você. Vocês já se conhecem há anos, pelo que sei.
- É verdade, e eu também admiro muito seu pai. Bem... nós poderemos ir ao cinema amanhã? Eu passo por aqui lá pelas seis, a gente senta em algum lugar para tomar um sorvete e apreciar o pôr-do-sol antes do filme, o que você acha?
Sorri:
- Para mim está perfeito. Que filme você sugere?
- Está passando uma comédia, Funny Lady. Com a Barbra Streisand. Você gosta dela? Assistiu Funny Girl?
- Não, mas ouvi falar bem deste filme.
- Barbra Streisand é uma cantora maravilhosa. Tenho todos os discos dela.
- Puxa, isso é que é ser fã, não é?
- Então, até amanhã.
Eu entrei em casa e tratei de descobrir quem era Barbra Streisand e que músicas ela cantava, pois eu praticamente nada sabia sobre música moderna.
- É bom mesmo você atualizar seus discos – comentou mamãe – Ninguém de sua idade ouve Beethoven.
- Todos os jovens que tocam algum instrumento e estudam em um conservatório escutam Beethoven – interferiu papai – A música clássica também está nos filmes e até mesmo nos desenhos animados.
- Eu quis dizer que os jovens não escutam só Beethoven. Eles escutam também Beethoven. Quando uma pessoa vive no século vinte, no Brasil, é preciso conhecer as coisas do século vinte e do Brasil.
Eu estava mesmo desatualizada. Sorte é que minha vizinha e ocasional companheira de pedaladas na praia, a Maria Lídia, tinha alguns discos de Barbra Streisand. Passei algumas horas no quarto dela, decorando algumas letras de música e aprendendo um pouco sobre o cinema americano moderno. Afinal, eu precisava fazer algum comentário pertinente no dia seguinte, em meu primeiro encontro com Roberto.



VIII


Quando nós nos sentamos em uma mesinha com vista para o mar, Roberto perguntou:
- O que houve com seu cabelo? Você estava tão linda de cabelos longos!
- Você não gostou deles curtos?
- Eu me assustei um pouco, os cabelos sumiram, foi um contraste e tanto! Claro, você continua bonita.
- Foi o calor. Acho que tive um repente de loucura! É bem mais simples cuidar de cabelos curtos.
Eu queria encostar nele, queria andar de mãos dadas, sentir de novo seu toque, queria que ele se declarasse a mim e me beijasse.
Ele disse que queria esclarecer algumas coisas.
Nós estamos começando a nos conhecer e eu gosto de situações honestas, claras. E a verdade é que eu não posso namorar ninguém – ainda. Nós estamos saindo apenas como amigos, quero que você compreenda isso.
- Nós ainda estamos começando a nos conhecer, certo?
Não havia nada de complicado, só escrúpulo, excesso de escrúpulo, da parte dele.
Ele conhecera uma moça, em Valinhos, uma companheira de escola, haviam namorado quando moços, até o momento em que Roberto saíra da cidade para cursar a faculdade. O fato é que a moça continuava a esperar por ele. Mantinha contato, visitava os pais dele, não desistia. Ele namorara outras moças, ela dizia ‘sei que é só passatempo...’. Ele fora para os Estados Unidos e esclarecera ‘não temos nenhum compromisso, arranje sua vida por aqui, eu posso nem voltar.’ Ele não mandara nenhum postal, nenhum cartão de Natal, nem telefonara, mas a moça sempre enviando notícias, bilhetinhos e pequenos presentes através da mãe dele. A mãe, na verdade, queria muito ter esta moça como nora.
- Quando voltei ao Brasil, fiquei por aqui, em nosso apartamento de temporada. Não tenho coragem de voltar a Valinhos. Minha mãe atrapalha, ao invés de ajudar; chegamos a brigar depois do casamento de seu primo, por sua causa, acredita?
Eu sabia. Papai me contara que a mãe de Roberto lhe perguntara, indignada, quem era aquela sirigaita que não largava do braço do filho, e meu pai rira:
- Pois é minha filha...
O fato é que a tal moça começara a falar em suicídio, chorava o dia todo, e ele se achava na obrigação de colocar todos os pontos nos ii desta história e terminar com a situação constrangedora e absurda.
- Desconfio que minha mãe ficou alimentando as esperanças dela, pelo que meu pai falou. Cidade pequena, poucos bons partidos, a moça é preguiçosa, não estudou, não trabalha, cismou comigo... Preciso voltar lá, você entende? Só então vou sentir que sou livre. Livre de encrencas.
Mudamos o assunto para Barbra Streisand, suas músicas, seus filmes. Tenho certeza de que me saí muito bem em meus comentários e que Roberto sequer desconfiou de que eu jamais ouvira falar de Barbra Streisand até a noite anterior.


IX

A próxima semana arrastou-se lenta e quente. Roberto ligou todas as noites, esteve ausente no fim de semana e não deu nenhuma notícia na semana seguinte.
Foi meu primo quem me ligou, assim que regressou da lua-de-mel:
- Quer passar o Carnaval conosco? Vamos para Peruíbe, alugamos uma casa na Prainha.
- Conosco? Quem?
- Eu, minha esposa, Roberto, Fulano, Sicrano...
Eu só ouvi Roberto. E perguntei:
- Roberto já conseguiu emprego?
- Do que você está falando?
- Roberto voltou há pouco dos Estados Unidos e me disse que...
-Ah, Roberto, meu padrinho de casamento!
E quem mais seria? - pensei.
- Melhor impossível – respondeu meu primo. – Ele classificou-se no concurso para biólogo e eu vou requisitar os serviços dele para o Museu de Pesca.
- Que ótimo!
- Mas, voltando a falar do Carnaval....
Passei o resto da semana aprontando a mala e o espírito para o Carnaval, fazendo ouvidos moucos para o silêncio de meu pai e o inusitado tagarelar de minha mãe, que insistia em lembrar:
- A família dele não aprova você. Homens como ele dão o maior valor à família. Ele deve ter reatado o namoro com a namoradinha de infância. É muito estranho ele não ter convidado você para o Carnaval, vai ver nem sabe que seu primo convidou você.
Eu me ocupava com meus livros e não respondia, não valia a pena fazer o jogo de mamãe. Ela me provocava porque gostava de brigar, ela adorava confusões, sua alegria era transformar qualquer gota d’água na segunda guerra mundial. Papai e eu nos tornamos malabaristas das palavras, e, não podendo discutir conosco, mamãe se consolava discutindo com a faxineira, com o tintureiro, com o padeiro, com os feirantes e com os parentes todos. Seu apelido era Pimentinha. Ela só não brigava com a cabeleireira e bem imagino o motivo.
A sexta-feira encontrou-me de malas prontas e embarquei alegremente no carro dos primos com as sacolas de frutas e os mantimentos para colaborar com a alimentação. Minha prima me tranqüilizara:
- Não se preocupe em cozinhar. A comida faço eu. E os homens lavam os pratos.
Roberto não foi. Ou melhor, outro Roberto foi. Um outro Roberto que também crescera com meu primo e que eu, supostamente, também conhecera em seu casamento. Como se eu pudesse ter olhos para outro Roberto...
Disfarcei com elegância. Soube que o meu Roberto viajara para o Rio de Janeiro com a família dele.
Durante o dia eu pulava ondas, jogava bolas, nadava, lagarteava ao sol. À noite, ensopava a fronha com lágrimas silenciosas.
- Ainda não vimos Roberto, o padrinho, depois de nossa lua-de-mel.- esclareceu meu primo – Só nos falamos uma vez, por telefone.
Aparentemente meus primos nem desconfiavam que o padrinho procurara pela prima deles.
Eu me recordava dos ardentes olhos verdes, do sorriso menino, e simplesmente sabia que ele me amava, com um sentimento forte e bom, tão sinceramente como eu o amava.
Quando mais nele pensava, mais o desejava perto de mim.
E eu pensava nele até em sonhos.

IX

No domingo de Carnaval, meu primo desligava o telefone quando eu saía do banho:
- Imagine quem acaba de ligar? Roberto, meu padrinho. E perguntou por você.
- O que ele disse?
- Perguntou se eu tinha notícias da prima que foi madrinha de minha esposa. Eu disse que estive em sua casa sexta-feira.
-E você disse que eu estava aqui?
-Não, não disse.
- Onde ele está?
- Em uma roda viva. Está havendo um congresso internacional no Rio de Janeiro e o professor dele nos Estados Unidos inscreveu o trabalho de Roberto para ser apresentado no tal congresso e estava tentando localizar o rapaz, sei lá por que cargas d’água, na Argentina!
Todos riram.
- Conseguiu a tempo, mas o coitado do Roberto está em uma correria de palestras, fotos, entrevistas, isso é ótimo para a carreira dele. Sinto que ele não ficará muito tempo conosco, em Santos.
Eu me senti encolhendo. Por melhor que fosse o meu projeto sobre bioenergética, não imaginava nenhum professor a me carregar para congressos onde quer que fosse. Eu sabia apenas que, se tal coisa acontecesse, eu encontraria cinco minutos para comunicar a ele onde eu estava.
Eu fora criada assim. Eu tinha de contar aonde estava, com quem, quando, sempre. Alguns de meus amigos homens nunca telefonavam para casa, porque não se esperava que fizessem isso, suponha-se de que eles não precisavam dar satisfações de suas vidas a ninguém.
Talvez Roberto houvesse recebido uma educação diferente da minha. Apenas isso. Afinal, ele não era meu namorado – ainda. Éramos apenas amigos que estavam começando a se conhecer.
Eu o imaginei no congresso e senti-me feliz por ele.

X

Na quarta-feira de cinzas Roberto telefonou-me.
Eu estava dividida entre duas tarefas: arrumar a tralha que trouxera da casa de praia e organizar-me para o reinício das aulas. Então limitei-me a um ‘boa tarde’ seco, e aguardei as explicações dele, seguindo um valioso conselho de papai:
- Não deixe que sua imaginação solte as rédeas de suas emoções.
Por conta do congresso e seus preparativos, ele não pudera ainda ir a Valinhos, e pretendia passar o próximo fim de semana em Santos. E descobri que, afinal, ele me telefonara, deixando recado com a faxineira, que se desculpou um milhão de vezes pelo esquecimento, quando a interroguei.
Foi um fim de semana feliz.
Roberto foi comigo à praia, ao restaurante, à casa dos primos para a primeira visita aos recém-casados e até levou-me para dançar.
Usei minhas roupas mais bonitas, expus minhas idéias mais originais e ri como nunca – eu, habitualmente séria - tão satisfeita estava com a vida. Meus pais foram gentis, meus primos foram hospitaleiros. Assunto para entretenimento não faltava: fotos do casamento, passeios na lua-de-mel, notícias do congresso, lembranças do Carnaval.
Decidi que se tivesse que repartir Roberto com meus primos e meus pais pelo resto de minha vida, eu me sentiria muito bem com o rumo que nossa convivência adulta estava tomando. Eu não precisava mais retirar-me para a varanda e ficar contemplando as estrelas, para não atrapalhar – o ditado preferido da família era ‘muito faz quem não atrapalha’ – pois eu crescera e era agora aceita no mundo deles.
Ah! Como eu estava orgulhosa de minha maturidade!


XI

Agora que Roberto trabalhava em Santos, nós nos encontrávamos todos os dias. Ele passava em casa na hora do almoço e me acompanhava até a faculdade.
Certa sexta-feira ele partiu para Valinhos e ficou combinado que eu iria na manhã seguinte, com meus pais e primos, e passaríamos o sábado com a família dele.
Seu Rodolfo era como papai: alegre, hospitaleiro e proseador. Levou-me para ver as vinhas e foi-me contando coisas interessantes que aconteciam ali pelo sítio.
A mãe dele era diferente. Serviu-nos comidas deliciosas e parecia querer intimidar-me com suas conversas culinárias. Como se eu estivesse sendo educada para ser dona-de-casa! E como é tradição em minha família o cozinhar bem, não me deixei impressionar.
Minha mãe é quem nos colocou em apuros. Começou por chamar de canalzinho o rio que cruza a cidade e terminou por comentar sobre o galã da novela em voga, que nascera em Valinhos, afirmando que bem se percebia seu sotaque caipira...
Depois de algumas outras pataquadas como esta, papai chamou-a à razão:
- Estás louca? Nós somos os convidados deles!
E ela:
- É que não posso olhar para ela sem me lembrar de que ela chamou a nossa filha de sirigaita.
Naquele momento eu a perdoei, e pedi a Roberto que me acompanhasse em um passeio pela trilha que contornava o sítio.
Longe de nossos pais, ele contou-me muitas de suas lembranças de infância: nesta árvore eu vigiava a estrada, naquela cerca eu amarrava meu cavalinho-de-pau, naquele canto ali eu pendurava para secar as pipas que fazíamos com ajuda de meu pai, ali fazíamos fogueiras nas noites de São João...
Ao fim da tarde, fomos às adegas do centro degustar vinhos e doces. Em uma dessas adegas, conheci a ex-namorada que insistia em esperar por ele. A moça, que servia tábuas de queijo aos visitantes, retirou-se assim que me viu e deixou-nos aos cuidados do pai. Roberto me disse:
- Depois desta tarde, a cidade vai comentar que meu ‘noivado’ com ela é pura fantasia desta maluca. E minha mãe terá o bom senso de parar com suas manobras casamenteiras.
Eu não sabia o que responder, então fiquei quieta. E ele continuou:
- Aí em frente, está vendo? Aí era um salão de torturas onde me obrigavam a cortar os cabelos todos os meses. O barbeiro era um sujeito de mãos enormes e eu morria de medo de que ele cortasse as pontas de minhas orelhas com sua tesoura imensa.
Olhei para ele com espanto. Ele ruborizou-se:
- Ah, eu era só um garotinho...
- Você teve uma infância bem feliz!
- Sua infância também deve ter sido feliz, não é?
Desconversei:
- Cresci em cidade grande, em apartamento, foi bem diferente.
Eu não queria contar a ele sobre minha infância.
Eu fora uma criança desastrada bem conhecida pela equipe do Pronto Socorro. Eu enfiava feijões na orelha, objetos pequenos no nariz, cortava-me até com faca sem corte, destronquei o pé, a mão, o ombro... e tinha violentas e regulares crises asmáticas.
Meu pai perdia a paciência: Desastrada! Estróina!
Minha mãe me vigiava constantemente para evitar que eu esbarrasse em suas coleções de bichinhos de vidro e enfeites de porcelana.
Eu, inocentemente, pensava que todas as crianças se comportassem dessa maneira desastrada, que caíssem, se machucassem, ou seja, que acidentes naturalmente aconteciam a toda hora com gente pequena.
Até o dia em que vovó apareceu em casa com pratos de plástico e uma xícara de lata e intimidou minha mãe:
- Daqui para a frente esta menina come aqui. Ela pode cair à vontade com estas coisas nas mãos que não vai se cortar nem quebrar nada.
Vovó sentou-se à mesa, pegou um pão, uma faca e chamou-me:
- Mostre-me como se corta um pão.
Mamãe estranhou:
- O que está acontecendo?
- Conversei com meu vizinho, que é médico, e aprendi umas coisinhas que vão ajudar esta menina – e vovó ensinou-me o segredo – O que você precisa é fazer a pergunta certa. E a pergunta certa, neste caso, é: onde estão os meus dedos?
Vovó ensinou-me a dobrar os dedos para trás, de tal modo que entre a faca e a mesa só houvesse o pão. Ou a couve. Ou a batata. E ela foi enfática:
- Não interessa saber se os outros vão achar esquisito ou dar risada, o que importa é que este é o jeito seguro.
Para os pés, havia outra pergunta: onde está o chão?
Durante muitos dia, vovó me seguiu por todo canto, com seu segredo das perguntas certas. Eu parei de cair do muro, de escorregar escadaria abaixo, tropeçar nas entradas da casa e deslizar pelos tapetes soltos nos assoalhos sempre bem encerados de mamãe.
O interessante é que as crises de asma também sumiram.
Eu sugeri que a técnica das perguntas certas poderia ajudar nas lições de casa. Porque eu trocava letras e números. O b pelo d, o p pelo q, doze por vinte e um. No dia seguinte vovó trouxe uma porção de respostas:
- Uma coisa de cada vez. Faça o mais simples primeiro. Separe as palavras em letras e confira letra por letra. Faça as contas de trás para a frente.
Eu descobri depressa diferentes maneiras de fazer os mesmos cálculos e estudar tornou-se apenas uma brincadeira a mais.
O mais interessante foi o café.
- Café? – estranhou mamãe.
Meu pai já ouvira falar como o café estimula o cérebro. Vovó confirmou:
- Café. Várias xícaras por dia. E chá preto. Nozes. Chocolate.
- Ué... para que tudo isso?
- Eu não sei ao certo, só estou repassando as informações que meu vizinho médico me deu.
- Esta menina vai perder o sono! – exclamou mamãe.
Pelo contrário, com a dieta de café eu adormecia como uma pedra e acordava com todas as cobertas ainda em cima da cama.
A voz de Roberto trouxe-me de volta ao presente:
- O que achou de minha cidade?
- Gostei muito. Melhor que isso só se pudéssemos andar a cavalo.
Ele puxou-me pela mão, como um garotinho travesso;
-Bem... nós podemos!


XII

Depois daquele sábado no sítio, em que até andamos a cavalo, tivemos outra semana tranqüila e cheia de pequenas alegrias.
Roberto me contava sobre o seu trabalho e eu lhe explicava o que aprendia na faculdade.
- Este Alexander Lowen do qual você tanto fala, por acaso é aquele que diz, deixe-me ver se me lembro, algo assim: “É preciso imediatamente começar a dançar, vibrar, respirar e sentir-se vivo? Continuar vivo é estar em movimento, em direção ao prazer?”
- O próprio: “Dançando com a vida, sempre”.
- Gosto disso.
- Segundo Lowen, o terapeuta precisa recorrer ao humor, ao amor, à poesia.
E eu me entusiasmava e contava a Roberto como a bioenergética me fascinava.
Um dos principais conceitos da bioenergética é o grounding, termo em inglês que significa , em bom português, "pôr os pés no chão, "cair na real. Quando a pessoa tem algum problema em seu desenvolvimento, sua energia vital fica bloqueada em algum ponto-chave do corpo. O bloqueio de energia ocorre desde muito cedo, durante os primeiros meses de vida. Dependendo da fase do desenvolvimento em que o trauma ocorre, o bloqueio de energia acaba se fixando ou na região ocular, ou oral, ou peitoral, ou visceral ou pélvica .
Em seu trabalho sobre couraça muscular, Reich descobriu que tensões musculares crônicas servem para bloquear uma das três excitações biológicas: ansiedade, raiva ou excitação sexual. Ele concluiu que a couraça física e a psicológica eram essencialmente a mesma coisa.
- E o que é a tal couraça muscular?
- É uma posição rígida do corpo, que a pessoa costuma mostrar, como defesa ao mundo. Você já viu pessoas que andam curvadas, ou de cabeça sempre baixa, e parecem que acabaram de apanhar de alguém? Pois isto é a tal couraça.
- Mágoas psíquicas profundas podem de fato enrijecer o peito de modo a formar uma couraça. E a terapia ensina a pessoa a desfazer a couraça e ser livre para rir, amar, dançar, enfim, alcançar uma vida amorosa pacífica e gratificante.
- Você realmente escolheu uma profissão interessante – dizia Roberto, sorrindo. – E eu sempre estarei disponível para rir e dançar, no mínimo aos sábados, prometo.
Ríamos. Éramos felizes.




XIII

Às vezes, no meio da noite, eu ouvia papai descendo a escada, geralmente nas madrugadas mais quentes, em que os lençóis se ensopavam e o ar que vinha do ventilador parecia saído direto de um forno.
Algumas vezes eu também descia e sentava com ele na cozinha, para beber chá gelado com limão, ou íamos para a varanda olhar as estrelas.
Até minha mãe descer e acabar com nossa alegria. Não íamos ser assaltados. A porta da casa, aberta, era um perigo. Poderiam entrar ladrões e baratas. Ela não poderia dormir até que nós dois estivéssemos dentro de casa, deitados em nossas próprias camas. Nós deveríamos parar de bancar os fantasmas, andando pela casa às escuras.
É verdade, não acendíamos as luzes. A iluminação da rua, e, às vezes, o próprio luar impedia a escuridão.
Papai encolhia os ombros e voltava ao quarto.
Mamãe ia inspecionar os cantinhos, à procura de alguma eventual barata, e aferrolhar as portas. Depois, ela conferia por três vezes os cadeados e fechaduras de todas as portas, antes de voltar a dormir. Cada porta da casa tinha duas fechaduras e três cadeados. Além dos olhos mágicos.
Para mim, era um mistério que uma mulher como mamãe houvesse arrumado marido. Só mesmo papai, para submeter-se a este tipo de vida todo cheio de regras rígidas e vagamente absurdas.
O comportamento menos estranho de minha mãe era lavar as mãos vinte vezes ao dia. Ela classificava as gavetas com etiquetas. Em seu armário, as roupas eram selecionadas por cor e por tipo. Da esquerda para a direita: blusas sem manga, de manga curta, de manga comprida, saias curtas, saias longas, vestidos, calças de verão e de inverno. Primeira as brancas, depois a amarela, seguindo a seqüência do arco-íris até o preto. Havia cabides vermelhos para as blusas sem manga, amarelos para as de manga curta e assim por diante.
Eu conquistar o direito de deixar meu quarto no que mamãe chamava de bagunça organizada. Meu quarto era o único local da casa onde não haviam paninhos de crochê e cortinas combinando com as almofadas e os tapetes; nas paredes nuas os olhos podiam descansar das coleções de quadros e retratos pendurados até pelos corredores.
Eu não conhecia nenhum casal tão desencontrado como meus pais. Eles discordavam de tudo, exceto em gostar um do outro.
- Nós nos completamos – dizia mamãe.
- Um pouco de contraste apimenta a vida – comentava papai.
Eu, por mim, sempre achei mais saudáveis as uniões de pessoas afins. Meus tios e primos viviam em harmonia e em seus olhos liam-se alegria e tranqüilidade.
Roberto e eu tínhamos muitas afinidades, exceto, talvez, pelo fato de eu ser muito caseira. Não que eu fosse do tipo ‘não há nenhum lugar como o lar’. Sempre me pareceu uma grande bobagem que Dorothy trocasse o país do arco-íris pelas cinzentas pradarias do Kansas. No lugar dela, eu enviaria postais, convidando o restante da família a mudar, o que, aliás, é o que fazem os americanos o tempo todo, eles vão para onde estão as melhores oportunidades.
A questão é que há todo tipo de gente no mundo e nunca se sabe exatamente o que esperar de estranhos.
Nunca senti Roberto como um estranho. Afinal, ele me fora apresentado por meu primo e nossas famílias se conheciam há anos.
Certamente muita coisa em comum nos unia, até mesmo a família.



XIV

Nosso romance progredia, até o dia em que Roberto propôs aquele absurdo:
- Vamos jantar em casa de Akiko, no próximo dia trinta. É minha chefe, ela irá oferecer um sushi em seu aniversário, como entrada.
Eu me senti paralisada. Meu estomago era um iceberg.
- Eu não conheço o pessoal... – comecei.
- Eu só conheço a turma há dois meses, e quero me socializar. Seu primo conhece todos, é claro, e também estará lá, com sua prima.
Roberto se pos a comentar sobre amizade, como era magnífico fazer novos amigos, conviver com os presentes e relembrar os ausentes. Eu me lembrei:
- Você cresceu em uma cidadezinha. Seus antigos amigos não devem morar mais lá.
- Não, claro, nós nos espalhamos pelo país inteiro e ainda mantemos contato. Quando nos reencontramos, pelo Natal, é uma festa!
Eu perdera contato com todas minhas antigas companheiras.
Quando eu mudara de colégio, minhas antigas amiguinhas mal respondiam a meus telefonemas. Quando entrei na faculdade, as colegas do colegial espalharam-se nem sei por onde sem nem deixar endereço. Eu entrara na faculdade local, onde meus atuais camaradas vinham de outras cidades e desapareciam nos finais de semana. Nem irmãos eu tivera.
Como é que eu ia dizer ao Roberto que eu não tinha amigos?
Quer dizer, eu tinha amigos. Os livros.


XV


Roberto não percebeu meu pânico.
Papai me deu um tapinha nas costas, todo animado:
- Você é como uma rosa que desabrocha, minha filha! Não é mais um patinho feio.
Mamãe apenas declarou que eu teria de ir, não poderia evitar.
Eu me lembrei de vovó, que me dizia, nas tardes solitárias em que eu me encolhia no vão da escada, porque os primos não queriam brincar comigo:
- Há coisas piores na vida do que ser tratada como ‘café com leite’. Procure algo para fazer sozinha.
Vovó talvez soubesse qual era a pergunta certa a fazer ao enfrentar pessoas estranhas. Eu sabia onde estavam os meus dedos. E os meus pés. O chão é que havia subitamente desaparecido. Bem como a minha voz. Eu nem conseguia tocar no assunto com Roberto. E, desta vez, café não ajudaria.
Eu surpreendera mamãe e papai discutindo, certa tarde. Papai falava que eu crescera e mamãe não deveria interferir. Ouvi mamãe retrucar:
- Eu só não quero que ela se machuque.
Quando entrei na sala, contudo, eles se calaram.
O que eu poderia dizer a eles? Ir a festas, conhecer pessoas...coisas corriqueiras. Eu poderia fazer de conta que estava em casa de meus tios – como na festa de casamento dos primos – e fazer de conta que seria bom conhecer novas pessoas – como fora bom conhecer Roberto e seu Rodolfo.
Como papai costumava dizer: ‘não adianta preocupar-se antes que as coisas aconteçam’. Mesmo porque às vezes as coisas nem acontecem. Ou acontecem de um jeito diferente do que a gente espera. E a gente só pode agir no momento em que as coisas acontecem, não antes.
O truque que eu usava em criança era simples. Ocupar-me com alguma outra coisa. Ia desenhar ou pintar ou ler.
Assim, fui para a biblioteca, ocupar-me com meus livros de bioenergética e meu trabalho de conclusão de curso.


XVI


Houve uma noite em que consegui dizer a Roberto que não queria ir à casa de uma desconhecida, como se fosse uma penetra. Meus primos, que estavam juntos conosco, disseram que conheciam Akiko há anos e que ela estivera no casamento deles:
- Ela achou você muito simpática e é uma pessoa realmente maravilhosa.
Em vão Roberto insistiu em minha companhia.
Em vão papai me exortava a ser corajosa. Ah, como eu detestava quando ele dizia que, na vida, somos, todos, guerreiros! Eu não queria ser forte! Eu queria era ser abraçada e consolada.
Quando eu era menina, mamãe lia para mim a Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias:
‘Não chores, meu filho, não chores, que a vida é luta renhida, viver é lutar.
A vida é o combate que aos fracos abate, que os fortes, os bravos só pode exaltar.’
Eu chorava copiosamente e odiava esses versos. Eu era apenas uma garotinha assustada. Eu não era um índio e não queria viver em lutas. Eu queria brincar, como meus primos brincavam, e rir. Eu desejava um mundo farto, em total harmonia, em que houvesse paz.
Ah, eu não sabia nada sobre as batalhas interiores! Eu não sabia que nosso pior inimigo está dentro de nós, e não do lado de fora. E que precisamos de coragem para combater nossas próprias fraquezas. Que nosso campo de batalha é nosso coração, nossa mente.
Agora, já crescida, em vão eu ficava parada diante do guarda-roupa, tentando encontrar aquela imagem linda de mulher, que ousara ser feliz.
Eu dizia:
- Não posso. Não vou.
E mamãe:
- O que o rapaz vai pensar?
- Ele não tem de pensar, tem de compreender!
Minha mãe falou:
- Este rapaz, caso você ainda não tenha percebido, é um cientista. Ele estará sempre envolvido com ambientes novos e pessoas estranhas. Congressos. Conferencias. Palestras. É este o ambiente em que você deseja viver?
Pergunta cruel!
Mamãe sabia muito bem em que ambiente eu me sinto bem. No centro de um vale florestal, de preferência à beira de um rio, pés descalços na água gelada, o vento assobiando em meus cabelos, a passarada cantando nas árvores copadas, borboletas dançando entre flores silvestres, este é meu conceito de felicidade. Estar cercada pela natureza. Longe das coisas urbanas. Sou uma pessoa simples de hábitos simples.
Ah, se vovó estivesse viva!
A semana passou.
Meus olhos estavam secos, na sexta-feira, quando, à hora do almoço, eu disse a Roberto que não iria.
Meus ombros, quando eu falava com ele, se curvaram, meu corpo todo se encolheu, e eu quase não conseguia respirar.
Cadê a postura altiva da mulher de vinte anos que se via linda ao espelho?
Ah, eu me senti desabar!


XVII

Como descreverei as semanas que se seguiram?
Eu agia automaticamente. De manhã, exercícios físicos. À tarde, seguia para a faculdade. À noite, eu lia até cair sobre os livros.
Todos os dias, o telefone mudo.
Roberto não respondia a meus recados.
Meu primo desconversava.
Uma universidade federal convocou Roberto para livre docente e ele deixou Santos para sempre.
Preciso ser inteiramente sincera. Ele veio a minha casa por duas vezes e insistiu para sairmos. Eu mal conseguia reunir forças para levantar-me do sofá e abrir-lhe a porta.
-Nós precisamos conversar. – ele repetia. – Vamos andar um pouco pelos jardins da praia.
- Não posso. – eu dizia. – Não quero.
Eu lia amor em seus olhos insistentes. E eu suspirava por ele, perdidamente apaixonada. O amor é capaz de superar qualquer obstáculo, não é o que dizem?
Ah, eu poderia ter tido na vida atenção, carinho, respeito, amizade e também toda a sofisticação e prosperidade com que eu sonhava!
Ah, eu tive nas mãos a oportunidade de modificar minha vidinha para sempre!
E no entanto...eu estava trancada dentro de um corpo murcho, que abaixou os olhos e murmurou um não.
Quando ele partiu, chorei por meses. Minto. Por anos! Até hoje choro.
Tornei-me uma psicóloga competente, escrevi dezenas de livros e meus trabalhos são citados em congressos por este mundo afora.
Porque eu revolucionei a bioenergética. Avancei do ponto em que Lowen parou.
E tudo começou bem cedo, com meu trabalho de conclusão de curso.
Afinal, compreendo muito bem as couraças dentro das quais os seres humanos se enclausuram, para se protegerem nem mais se lembram do que, e que os impedem de serem felizes.

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