25 de mai. de 2010

Sócrates - um conto para meninos

O garoto brasileiro adorava futebol e chamava-se Sócrates. Nome de craque. O menino dizia que, quando crescesse, iria ser jogador de futebol.
Um dia ele estava mexendo na estante de livros da prima Lúcia e encontrou “A Defesa de Sócrates”.
- Lúcia, eu não sabia que você gostava de futebol.
- Eu detesto futebol.
- Ué, e este livro aqui?
A prima sorriu e explicou:
- Este Sócrates aí não é o jogador de futebol que você conhece, não. Sócrates foi o maior filósofo de quantos já existiram até hoje. E filósofo, antes que você pergunte, quer dizer ‘amigo da Sabedoria’. Sócrates era um sábio que viveu há vinte e cinco séculos atrás.
Um século só já deixava o menino tonto, vinte e cinco nem dava para imaginar.
- Lúcia, conte para mim a história deste Sócrates sabido.
A prima Lúcia pensou por um instante em como falar de filosofia para um garoto de dez anos. E depois de pensar um bocadinho, ela contou esta história:
“ Há vinte e cinco séculos atrás, há tanto tempo que é até difícil para a gente imaginar, em um país chamado Grécia, uma sacerdotisa do deus Apolo afirmou que Sócrates era o homem mais sábio do mundo. Sócrates morava na cidade de Atenas, que era a cidade mais importante daquele tempo naquele pedaço do mundo. E as pessoas que queriam aprender iam para Atenas para conhecer Sócrates.
Este sábio era um homem muito esperto. Ele dizia, muito admirado, que não se considerava sábio porque não sabia o que era, por exemplo, o amor, ou a justiça, ou a coragem. Aí perguntava para as pessoas em volta o que elas pensavam sobre estas coisas e, enquanto as pessoas explicavam, Sócrates ia fazendo perguntas e mais perguntas até deixar todo mundo tonto. É até engraçado a gente ler estas conversas que pareciam dar voltas e mais voltas sem chegar a lugar algum. A pessoa acabava por perceber que ela também não sabia nada sobre o assunto. Sócrates então contava que amor, coragem, liberdade, amizade, justiça, beleza, enfim, todas estas coisas eram mistérios; todo mundo pensa que sabe o que é mas não sabe como explicar, e ele, Sócrates, não sabia nada sobre estas coisas, como todos, mas havia uma diferença.”
-Que diferença, prima?
- Sócrates dizia: “eu sei que nada sei”. A pessoa comum dá sua opinião sobre tudo, eu acho isto, eu acho aquilo, sai por aí cheia de ‘achismos’. O sábio é o homem que sabe que não sabe.
O menino pensou que ele também não sabia um montão de coisas e sabia que não sabia. Vai ver que isso já era um comecinho de sabedoria...
- O que mais Sócrates falava?
- Sócrates falava das escolhas dos homens. Porque os gregos acreditavam em um destino traçado pelos deuses e Sócrates dizia que o homem é livre para fazer o que quiser de sua vida. Um passarinho não é livre, tem de fazer um ninho, e tem de ser aquele tipo de ninho e não outro. Um pato faz o ninho à beira do lago; a águia, no alto da montanha; não podem fazer nada diferente. Um homem pode escolher. E porque um homem pode escolher, é melhor fazer as coisas certas e escolher coisas boas e úteis.
-Sabe o que eu penso do destino, prima? Penso que destino a gente não muda. Preste atenção: existe verão e inverno, sempre faz calor no verão e sempre faz frio no inverno, e a gente não pode mudar isto. Tudo é assim.
Lúcia deu ao menino um sorriso lindo:
-Você é observador. É realmente assim. A gente não muda o que está fora. A gente muda aqui dentro. – e ela colocou uma das mãos no coração e apontou com a outra para a cabeça.
- Eu não entendi.
- Vou explicar falando do verão.O homem fabrica ar condicionado, ventilador e sorvete. Uma pessoa pode passar protetor solar e sentar-se à sombra. Ou pode passar bronzeador, ficar o dia inteiro exposto ao sol e bronzear-se; mas, se ficar com bolhas na pele não poderá dizer que foi o destino. Foi a maluquice de não se proteger do sol, uma decisão dela, e ela vai ter de ser responsável por isto. Entendeu?
O menino fez uma careta:
- Mais ou menos.
- As pessoas mudam seu destino quando fazem suas escolhas. Quando os computadores surgiram, algumas pessoas se apressaram a aprender como usar estas máquinas.
- Fizeram cursos de informática – apressou-se a dizer o menino, para mostrar que conhecia o assunto.
- Estas pessoas fizeram um esforço grande e os primeiros empregos na área de informática pagavam muito bem, porque poucos entendiam do assunto. Outras pessoas se queixaram: “é muito difícil”, algumas perderam seus empregos e colocaram a culpa nos computadores. Não perceberam as novas oportunidades.
- Agora entendi. Lá na escola está cheio de menino falando mal do professor e têm outros estudando pra valer. Os meninos que reclamam não saem do lugar e os que estudam tiram as melhores notas. Então é assim que cada um faz o seu destino.
- Os poderosos da Grécia queriam que o povo acreditasse que o destino estava nas mãos dos deuses e quando Sócrates começou a ensinar que o homem é livre para escolher o seu caminho no mundo, os poderosos ficaram com medo de perder o poder e condenaram Sócrates à morte.
- Que horror! Mas, Lúcia, então isto quer dizer que, uma vez que a gente escolha, a gente só tem uma escolha? Não pode mais mudar?
-Claro que não. O seu ídolo no futebol, por exemplo, é médico.
-Sócrates é jogador de futebol e médico? Como pode?
- O Dr. Sócrates joga tão bem futebol que foi para a Copa do Mundo. Mas pode voltar a ser médico a qualquer hora, ou fazer qualquer outra coisa, o mundo dele é maior que um campo de futebol. Não há limites para o homem. Cada um faz seu mundo do tamanho que melhor lhe convém.
- Quer dizer, Lúcia, que, se eu quiser, posso ser jogador de futebol e filósofo?
-Pode, sim, meu amor.
O menino ficou pensando em seu nome, em seu ídolo no esporte e naquele grego tão feio e tão sabido. Pensou em tudo que a prima dissera, que cada um faz seu mundinho do tamanho que quer e que, já que se pode escolher, melhor escolher coisas boas, e porque não, as melhores coisas?
Na semana seguinte, na escola, o menino contou para todos os colegas:
- Eu tenho um nome famoso. Nome de jogador de copa do mundo. Nome de filósofo grego. E posso escolher ser as duas coisas ao mesmo tempo, se eu quiser, porque o ser humano é livre e responsável por suas escolhas.
Seu melhor amigo deu risada, piscou um olho para a turma e respondeu:
- Pra filósofo você leva jeito, mas pra jogador de futebol, sei não, você é meio ‘perna-de-pau’...

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